domingo, 6 de julho de 2014

LÍNGUA PORTUGUESA

O oitavo centenário da nossa "língua-mãe" não quer dizer que a mesma permanece parada. Pelo contrário. As 800 primaveras da Língua Portuguesa mostra o quanto ela se reinventou, se adequou, e permanece em constante mudança até hoje.
Os quatorze versos escritos pelo autor parnasiano Olavo Bilac, no poema Língua Portuguesa, mostra claramente essas transformações, numa abordagem histórica do nosso rico idioma. Seguindo rigorosamente as normas clássicas de pontuação e rima, logo no primeiro verso, "Última flor do Lácio, inculta e bela", o poeta faz alusão ao fato de que a língua portuguesa seria a última língua neolatina formada a partir do latim vulgar, utilizado pelos soldados da região do Lácio, na Itália.
Em todo o poema, Bilac afirma, em linhas subjetivas, que o idioma ainda precisava ser moldado e que, para ele, impor essa língua a outros povos não era um tarefa fácil.
Antiga ou jovem
Para o membro da Academia Cearense de Letras e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), José Batista de Lima, dizer que o Português é a "última flor do Lácio", como a última língua surgida, nas palavras de Olavo Bilac, traz controvérsias, já que há quem diga ser o romeno o último idioma neolatino.
Sobre os registros de que se tem notícia, o Sânscrito é a língua mais velha, falada pelos sacerdotes hindus na antiguidade. Entretanto, afirmar que a língua é jovem ou antiga é muito mais complexo do que se pensa. "Toda língua é antiga na sua diacronia, como nascimento e evolução, e é nova na sua sincronia, ao representar o momento presente. Nossa língua tem 800 anos de oficializada, mas suas raízes são muito mais antigas".
Acreditou-se que, um dia, a Língua Portuguesa entraria em desuso ou morreria completamente. O passar do tempo trouxe não só novas descobertas, como também a certeza de que, enquanto houver pessoas se comunicando com o mesmo idioma, esta língua não desaparecerá. "As línguas não morrem, elas deixam de ser faladas. Porém, continuam sendo estudadas e repercutindo nas que vão surgindo", explica Batista.
As mudanças que o idioma vai absorvendo é de total importância para que ele evolua. "Se elas pararem de mudar é porque deixaram de ser faladas. Nem o Português de Portugal é o mesmo". Para o especialista, as transformações que acontecem até hoje e a riqueza contida no Português do Brasil são reflexos dos africanos, indígenas e outros povos que aqui aportaram.
Dialetos
Em um país de dimensões continentais, não há como se distanciar dos diferentes modos de linguagem, mesmo falando uma única língua. É fácil notar que as mais diversas regiões do Brasil possuem dialetos específicos que as caracterizam. Todavia, as formas de se expressar, de se comunicar, de usar dialetos não nos distanciam.
Além das gírias muito usadas, características de cada canto do País, a linguagem informatizada se espalha cada vez mais. As palavras abreviadas utilizadas em aplicativos e redes sociais já se tornaram um novo modo de diálogo entre as pessoas.
Com o objetivo de cursar Medicina, Maria Clara Vieira, 17, se preocupa bastante com a forma de se comunicar. "Eu procuro usar sempre a linguagem correta, nas redes sociais ou em conversas informais. Acho que o hábito pode influenciar. Vou me policiando, até mesmo para não escrever errado nas provas de vestibular", comenta.
Batista de Lima afirma que a escrita informatizada não é preocupante. "Esse tipo de escrita não assombra porque não tem raiz. É fruto de novas tecnologias que não são localizadas". Segundo o professor, "a língua é como água de cacimba, tem que vir com o sabor da terra".
Nosso "Cearês" bem peculiar
Estreando com um grande sucesso nas telonas, o longa "Cine Holliúdy", do diretor de cinema Halder Gomes, mostra, de uma forma cômica, o jeito cearense de se comunicar. As gírias, os dialetos e as expressões usadas pelas pessoas que carregam o Ceará como terra-natal são abordadas durante todo o enredo. E o que mais chama atenção dos espectadores, além da própria história que se passa nos anos 1970, no Interior do Estado, é a legenda que está presente em todo o filme.
É interessante notar que, apesar de ser um filme brasileiro, na tela do cinema, a legenda também é em português. "A intenção foi cumprir dois papéis. O primeiro, de acrescentar um pouco de excentricidade ao filme. E o segundo, é a necessidade de mostrar esse Brasil latente, meio escondido, com um tipo de humor que o Brasil não conhecia", explica Halder, deixando clara importância do letreiro. "Quem não é do Ceará realmente não entende. E não são só as palavras. Mas também a forma de falar muito característica daqui, a velocidade. Eu mesmo, quando estou fora, tento me policiar para que as pessoas me compreendam". Isso afirma cada vez mais o quanto somos um país de uma língua só, porém com linguagens diferentes. "Desempenhamos uma função de mostrar a nossa cearensidade".
Particular
O cineasta ainda aponta as diversas formas de linguagem como segmentadas por classes. Para ele, no Ceará não é assim. "Somos um linguajar universal, dentro das diferenças culturais e sociais". Halder menciona o "dicionário cearês" como a nossa língua. "Ela é singular, muito particular do nosso povo, que evolui, se reinventa, se adapta, se desenvolve", afirma.
As expressões usadas pelos cearenses já ganharam todo o Brasil e até mesmo o mundo. Halder conta que por onde passo ouve as pessoas tentando imitar os nossos trejeitos, nossas falas, e sempre escuta um "arriégua, macho", expressão usada pelo personagem principal do filme, Francisgleydisson.
"O que antes fazia com que as pessoas se sentissem envergonhadas, hoje traz orgulho", assegura o diretor. "A nossa forma de falar é muito linda, além de ser riquíssima".
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Vestígios do latim são conservados
Considero interessante começar por definir Língua e dialeto. Língua é a linguagem particular de um povo. Dialeto é a modificação regional. No nosso caso, que é o latim, começa como tradição literária no século III a.C. Do latim vulgar, originaram-se as românicas ou novilatinas: português, espanhol, italiano, etc. Essas línguas conservam vestígios inquestionáveis de sua filiação ao latim no vocabulário, na morfologia e na sintaxe.
No que diz respeito ao uso, classificam-se as línguas em vivas: as que estão em atividade diária como instrumento de comunicação; mortas: já não faladas, mas que deixaram documentos escritos, como o latim; extintas: que desapareceram sem deixar memória documental, como o indo-europeu (COUTINHO: 1976). Se há indivíduos vivos se comunicando, a língua, em princípio lógico, deve continuar viva! Não me parece plausível pensar diferente.
Toda língua é manifestada pelo povo, e as alterações fonéticas (metaplasmos), por exemplo, acontecem ao longo do tempo; no caso do português do latim vulgar ao galego-português e deste ao português atual. Há no trajeto temporal das línguas mudanças naturais e estruturais - no vocabulário (influência de outras línguas, como indígena: caritó, xará; francês: assassinato; mudanças de acepção etc), na fonética (metaplasmos) na morfologia (mudanças de gênero, etc) e na sintaxe (home empregado como sujeito indefinido etc).
O que é fato: a nação portuguesa fala a realização do cotidiano dela, nós a nossa e cada uma das nações que utilizam o português. Hábitos, influências, as coisas de todos os dias são específicas em cada nação: um objeto, uma atitude, um sentimento, as dialetalizações, etc.
Há princípios gerais que norteiam o caminho percorrido pelos falantes de uma língua. A linguagem, atributo humano, grosso modo, também funciona assim. Princípios como a analogia e a economia: várias alterações fonéticas contemplam esses princípios humanos. Citemos ilustrativamente o caso de vossemecê (vossa mercê) >vomecê >você >cê. Em que se percebem, claramente, o economizar e o metaforizar respectivamente. O "internetês" não deve afastar-se desses, diríamos, preceitos.

FONTE: Diário Do Nordeste

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